Como eu consegui uma Bolsa Chevening

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Sou professor de inglês e trabalho desde dos 19 anos ensinando na rede privada. Já quis ser médico e fiz cursinho para passar no vestibular de medicina. Não consegui. Pra ser bem sincero, nunca soube exatamente o que eu gostaria de ter como profissão. Acabei entrando num curso de Relações Internacionais simplesmente porque eu falava inglês e gostava de viajar. Cheguei a fazer um mestrado em Ciência Política, por falta de opções e por não ter passado no mestrado em Relações Internacionais da UnB, mas, depois de ter cursado todas as disciplinas, faltando apenas terminar a dissertação, desisti.

O primeiro parágrafo é minha tentativa de demonstrar que, ao contrário de muitas pessoas que me parecem bastante decididas sobre a vida, sou confuso. Sou o que a Emilie Wapnick explica brilhantemente no seu TED Talk: um “multipotentialite”. Isso quer dizer que eu tenho várias habilidades e interesses que poderiam se viabilizar em alguma profissão. Desde criança estudei várias coisas ao mesmo tempo (flauta transversal, trompete, artes plásticas, inglês, basquete, natação, informática, etc). Sempre gostei de todas as matérias e tirava notas boas em tudo. Ser multipotencial pode ser divertido, contudo, pode te deixar na mão na hora de ter que tomar “a DECISÃO”: O que vou ser quando crescer?

Por mais irônico que isso pareça, hoje não tenho dúvidas que foi justamente esse estado de confusão e vários interesses que me presenteou com a minha maior realização até agora. Com muito orgulho, anuncio a todos que ainda não saibam: SOU CHEVENING! #chosenforchevening. Ainda não consigo processar exatamente todas as implicações da afirmação anterior, mas posso garantir que estou em estado de euforia.

Como eu consegui isso? Bem, foi uma decisão relativamente simples. Eu decidi estar preparado. E foi o que eu fiz e venho fazendo nos últimos 3 anos. Em 2015, aceitei o desafio de assumir a coordenação da biblioteca de um Centro Binacional. Conheci e me envolvi com diversos projetos e instituições. O Movimento Maker foi um deles e o mais cômico é que ganhei uma viagem com um projeto que escrevi para conhecer de perto o que a biblioteca de São Francisco estava fazendo, além de participar da conferência da American Library Association, e não pude ir porque ocorreu um problema com a emissão de vistos justo na semana que eu fiz a entrevista na Embaixada dos EUA. No mesmo ano, conheci o Partners of the Americas (POA), que foi um divisor de águas na minha vida.

Em 2016, voltei à sala de aula e comecei a testar ideias metodológicas com os meus alunos e alunas. No meio desse ano, fui ao estado do Wyoming, EUA como bolsista do Teacher-in-Residence do POA. Nessa época, me afiliei ao comitê do POA Goiás como seu primeiro secretário e ajudei com a restruturação. Foi lá, naquele mês de julho de 2016, que eu consegui pela primeira vez ter clareza sobre o que eu queria ser. Eu queria ser um agente de mudança na educação do meu país. Passei um mês falando sobre ensino, educação, boas práticas de sala de aula e entrevistando professores e professoras de todos os níveis e especialidades. Quando voltei, decidi que focaria nisso e que dedicaria boa parte do meu tempo e recursos com desenvolvimento profissional nessa área. Por isso desisti do mestrado. Participei da Convenção POA no México, comecei a dar mais workshops e palestras e foquei meus estudos em Neurociência e Educação.

Durante essas etapas, ainda em 2015, tornei-me consultor pedagógico da National Geographic Learning, que me deu a honra de apresentar nas três edições da National Geographic Learning Conference de 2017 ao lado de profissionais incrivelmente gabaritados. Tive o privilégio de palestrar com o TED Fellow Aziz Abu Sarah, por exemplo. Conheci a minha grande inspiração e mentora (pelo menos é isso que a considero) Mirela Ramacciotti, que me convidou para participar do grupo de interesse Mind, Brain, and Education e tudo passou a fazer mais sentido na minha vida profissional. Fui a diversas conferências, simpósios e congressos, como observador e palestrante. Viajei o Brasil dando treinamentos e conheci a realidade de várias escolas. No final de 2017, fui eleito presidente do Comitê POA Goiás.

O mais interessante é que eu não fazia a menor ideia do que era Chevening até setembro de 2017 quando participei do Brelt on the Road: Rio Edition. Foi na palestra da Priscila Bordon e da Cecília Nobre que eu fiquei sabendo que o governo britânico custeava a ida de milhares de pessoas do mundo inteiro para estudar no Reino Unido com bolsa integral + ajuda de custo. Ou seja, tudo pago para fazer um mestrado no Reino Unido. No começo, hesitei bastante, mas decidi me candidatar. O processo foi longo e cansativo e ainda por cima fiquei como reserva depois do anúncio dos vencedores da bolsa. Entretanto, no dia 30 de julho às 8h50 verifiquei um email pelo celular quando eu estava na casa dos meus pais em São Roque. Demorei uns 5 minutos para criar a coragem necessária para abrir o email de Chevening. A notícia era que eu havia sido selecionado e tinha mais alguns passos para resolver. A minha reação foi estranha. Como se eu estivesse gritando de felicidade por dentro, mas sem emitir um pio. Minha mãe entrou e, quando eu contei a ela, me abraçou forte e me parabenizou. A reação do meu pai foi bem assim: “Esse menino, hein?”. Mal acreditei que eu consegui.

O meu grande diferencial foi ter me preparado. Me preparei para alguma coisa e descobri somente há um ano no Rio de Janeiro. Tenho muito orgulho de ter sido escolhido e quero ressaltar alguns elementos importantes que podem ajudar você, caso queira se candidatar para essa bolsa ou qualquer outra:

  1. Invista em aulas de inglês. Ter o perfil perfeito, mas não ter o nível necessário de inglês pode ser a diferença entre ser escolhido ou não;
  2. Crie um perfil de liderança. Assuma riscos e oportunidades para sair da sua zona de conforto. Isso envolve fazer parte de associações, ONGs, grupos de estudo e ações voluntárias;
  3. Invista em desenvolvimento profissional. Não espere participar de conferências, cursos, workshops somente com a ajuda de sua empresa. Procure comitês e torne-se membro. Viaje e participe de palestras, cursos e eventos relacionados com a sua área;
  4. Networking. Conheça pessoas influentes que podem recomendar o seu trabalho. Participe de projetos e seja um conector também;
  5. Esteja preparado. Fazer tudo isso pode não parecer claro no início, no entanto, quando a oportunidade se apresentar, pegue-a!

Em pouco mais de três semanas eu parto para a Universidade de Bristol para estudar Psicologia da Educação. É extremamente gratificante poder dizer isso. O meu perfil variado e a decisão que tomei em me preparar foram o que me trouxeram aqui. Aquele jovem estudante que não tinha noção do que queria ser quando crescesse agora tem não só clareza, como um objetivo, uma missão: revolucionar a educação brasileira com os conhecimentos obtidos no mestrado do Reino Unido. O melhor de tudo é que se eu consegui, você também consegue. As inscrições estão abertas, que tal dar uma olhada? Ainda não tem o perfil? Start building it.

Bristol, see you soon!

7 Replies to “Como eu consegui uma Bolsa Chevening”

  1. I’m very happy for you! Having been born in the southern hemispehere is not an easy task. I’m now asking for funds to attend an internacional conference and it’s really tough.

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    1. It is hard, Mariangel. How many times have my proposals to get a grant to travel been turned down? Countless. The secret is to keep trying. I wish you the best of luck.

      Liked by 1 person

  2. Muito legal! Tudo! A começar pela foto com essa lindeza aqui no blog! 🙂
    Estive no Braz-Tesol em SP no ano passado, eu estava com a Fabi Muliterno e ela nos apresentou, coisa rápida. Agora vi seu post no Facebook – BrElt, li esse texto do blog e
    tô achando tudo simplesmente o máximo! Parabéns!!! Sucesso… sempre!

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  3. Que história bacana, André. Parabéns por ter sido selecionado pelo(a) Chevening! Ao ler o seu texto, em verdade, percebe-se claramente que você domina expõe suas ideais de forma clara, coesa e coordenada (o oposto de tudo o que eu faço, por sinal). Deixa eu te perguntar: você acha que o escore obtido no IELTS acaba influenciando na decisão dos avaliadores? Acabei ficando no overall 7.5 porque fiquei muito nervoso no speaking e peguei um 7. Outra dúvida, não sei se o meu report form chega antes da deadline da aplicação deste ano, só tenho os resultados no site. É possível fazer algo sobre isso? Se tudo der certo, te vejo em setembro de 2019, caso ainda esteja por aí.
    Abraços.
    Rodrigo Kravetz.

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